Intriga Internacional

1 – O morto sentado

No dia em que o corpo de Humphrey Wallace Toomey, o ex-vice-presidente da Pan American Worlds Airways, foi cremado em São Paulo, é que me veio pela primeira vez a suspeita: sua morte, que até então era apresentada pelos jornais como um dos mais intricados mistérios ocorridos no Rio, poderia muito bem ter sido apenas o resultado de uma incursão pouco feliz do mais reles dos criminosos: um ladrão.

Já então, todas as hipóteses tinham sido levantadas: tráfico de tóxicos, disputa de terras, vingança e, sendo a vítima norte-americana, até um possível envolvimento com a Máfia. Eu mesmo me vira tentado a seguir um desses caminhos, ao assumir o caso. Pistas para cada um deles é que não faltavam, tal era a vida aventureira da vítima, um personagem tão complexo que caberia à perfeição nas páginas de qualquer romance policial.

No entanto, havia algo na morte de Toomey que não se encaixava naquelas histórias fantásticas. No dia da cremação, diante da viúva, Rotraud, e de uma de suas filhas, Mary Cecília, a ouvir os comentários deslumbrados do papa-defunto João Lambari – que pela primeira vez via um corpo ser cremado, e que se declarava emocionado por isso -, tive uma espécie de intuição: valia a pena seguir, no chamado caso Toomey, a pista que parecesse mais trivial, menos sensacionalista. E o tempo diria que eu estava com a razão.

Voltemos da cremação para o dia do crime. No dia 9 de dezembro de 1974 a empregada doméstica Clari Carlos de Almeida chegou à hora de sempre ao emprego, num apartamento da Rua Rainha Elizabeth, em Copacabana. Abriu a porta dos fundos, entrou na casa e, ao chegar na sala, teve uma surpresa: sentado numa cadeira, de costas para ela, imóvel como se dormisse, estava o seu patrão, Humphrey Wallace Toomey. Norte Americano, ele só de vez enquando vinha ao Brasil, hospedando-se no apartamento que lhe pertencia, e onde morava sua filha, Gailbraith.

Empregada há dez anos na casa, e bastante íntima dos seus moradores, Clari resolveu pregar um susto no patrão: aproximou-se por trás dele, pé ante pé, e puxou seus cabelos brancos. Toomey, que até então tinha a cabeça tombada sobre o peito, caiu da cadeira e estendeu-se no chão, imóvel. E só então a empregada Clari percebeu: ele estava morto.

As providências que se seguiram foram tomadas sem o conhecimento da polícia, pois as informações sobre o crime só lhe chegaram por volta das oito horas da noite, embora Clari tenha encontrado o corpo ao meio-dia e meio. Primeiro, a empregada desceu correndo as escadas e chamou o porteiro do prédio, Napoleão, que subiu com ela e constatou: Toomey estava morto. Depois, e já então sob ordens de Gailbraith, que fora avisada, a empregada chamou o pronto-socorro cardiológico, mas o médico fez apenas o que o porteiro já fizera: constatou a morte, descobriu no corpo um ferimento provocado por bala e retirou-se, sem tomar qualquer outra providência.

Houve intensa movimentação na casa, como a perícia constatou depois: Clari fez arrumação, o corpo foi retirado do lugar, Clari chamou vários amigos e discutiu o problema com eles, tudo isso antes de chamar a polícia. E quando esta, finalmente, tomou conhecimento do caso, levantou de imediato seis itens, todos a indicar que ela estaria nos próximos dias, diante de um enigma cuja solução não seria facilmente encontrada:

1- Só oito horas depois de encontrado o corpo a polícia foi informada;

2- O médico, chamado pela empregada, descobriu que o homem foi morto a tiro. Recolheu seus apetrechos e foi embora;

3- Nada havia no apartamento que indicasse a presença recente de outra pessoa além de Clari, embora isso pudesse ser atribuído à limpeza feita pela empregada;

4- A vítima presumivelmente acabara de acordar. Vestia um robe, mas estava de sapatos e meias;

5- Os objetos de valor estavam todos em seus lugares. Os dois cofres não tinham sido trocados.

6- Uma mulher de nome Jaci pedira na noite de domingo, pelo telefone, para ir ao apartamento. Humphrey não deixou (ele chegara de viagem naquele dia, à noite. Seu corpo foi achado no dia seguinte).

 

2 – Retrato do morto

De Humphrey Wallace Toomey, o morto da Rua Rainha Elizabeth, pôde-se, nos dias seguintes, traçar dois perfis, que raramente combinavam. O primeiro era o oficial, que o mostrava como um dos mais respeitáveis aviadores norte-americanos, o homem quem a 20 de novembro de 1929, pilotando um Sikorsky S-38 – batizado três dias antes no Recife como Pernambuco – estabeleceu a linha regular Miami-Rio, que terminava no Campo dos Afonsos (por coincidência, sua vida terminaria no final da mesma rota, depois que ele participou de outro vôo pioneiro, o da introdução do equipamento Jumbo na viagem Miami-Rio: convidado para o primeiro vôo foi neste que ele chegou pela última vez ao Brasil).

Toomey teve 45 anos de sua vida estreitamente ligados ao Brasil, país que – dizia em português fluente – adorava. Principalmente o Rio, de onde, em 1930, passou a comandar todos os investimentos da Pan American na América Latina, tornando-se superintendente da NYRBA – New York-Rio-Buenos Aires Line, comprada pela Pan Am e antecessora da Panair do Brasil, que ajudou a fundar.

Seus vôos pioneiros pela NYRBA demoravam nove dias de um extremo a outro da rota, com pernoites em Porto Alegre, Rio, Salvador, Fortaleza, Belém, Georgetown, St. Thomas e Santiago de Cuba. Em 1930 ele estabeleceu a linha de correio aéreo argentino, entre Buenos Aires, Montevidéu e Porto Alegre, e três anos depois tornou-se o primeiro piloto a voar, em termos comerciais, entre Belém e Manaus, estabelecendo a primeira rota comercial da Amazônia.

Em 1934 deixou temporariamente o Brasil para ocupar, em Miami, os cargos de engenheiro-chefe do Departamento de Operações da Pan Am e subgerente das linhas das Antilhas. Durante a guerra, em 1941, atendendo a um pedido do Presidente Franklyn Roosevelt, criou uma linha através da África e Ásia até Karachi, no Paquistão, onde as aeronaves da Pan Am se ligavam às da Índia-China Wings.

Em 1952, como vice-presidente da Pan American, voltou a residir no Rio, de onde coordenava as atividades da empresa também na Argentina, Uruguai e Paraguai, isso até 1962, quando se aposentou, dois anos após ter feito o primeiro vôo internacional partindo de Brasília.Para que a capital que nascia tivesse tivesse sua primeira ligação aérea internacional foi preciso que o próprio Toomey fizesse várias viagens do Rio ao Planalto Central , pilotando um pequeno avião. Na época, além do Catetinho, residência das autoridades, nada mais havia em Brasília.

Em 1964 ele recebeu do Governo brasileiro o título de Grande Oficial da Ordem do Cruzeiro do Sul. Quatro anos antes já tinha sido condecorado com a Medalha do Mérito da Sociedade Brasileira de Direito Aeronáutico.

Toomey, que só se transferiu para Coral Glabs, perto de Miami, com a aposentadoria em 1962, tinha no Brasil, sobretudo no Rio e em Brasília, a maioria dos amigos, quase todos ligados aos altos escalões da aviação comercial. Vinha vê-los constantemente, no mínimo por uma semana. Ele foi casado três vezes. A primeira mulher, a norte americana Francis, não teve folhos. A segunda, Grace, morreu no Brasil, vítima de uma picada de mosca tsé-tsé na África. Deu-lhe três filhos, um deles Gailbraith. O terceiro casamento foi com uma modelo alemã naturalizada brasileira, Rotraud, que conheceu no Rio. O casal teve dois filhos.

O retrato oficial de Huphrey Wallace Toomey cabia em três folhas datilografadas de papel tamanho ofício, e foi distribuído pela própria Pan American aos jornais, um dia após sua morte. Mas havia outro Toomey, cujos traços aparecem apenas sombreados neste retrato oficial; um aventureiro, que amava o perigo e as emoções fortes, que se apaixonara não apenas pelo Brasil, mas também pelo seu povo e, principalmente, pelas suas mulheres. Era a estas que ele dedicava a maior parte do tempo, cada vez que voltava ao Rio. Isso ficou provado, ao longo das investigações, através das duas agendas de endereços que possuía. E dessa outra face do homem assassinado à Rua Rainha Elisabeth, quem traçou o melhor perfil foi José Corrêa Filho, porteiro do prédio no qual ele tinha o apartamento e sua filha, Gailbraith, morava.

Há 25 anos no mesmo prédio, José já encarava como uma rotina as visitas de Humphrey Wallace Toomey ao apartamento onde a filha morava. E sabia do morto coisas sobre as quais certamente não fora informado na portaria. Por exemplo: Humphrey, segundo ele, não fumava, só bebia uísque, freqüentava a vida noturna, e sempre chegava em casa, de madrugada, em companhia de mulheres diferentes – às vezes, até mais de uma de cada vez: “louras, mulatas e ruivas”. Na véspera do crime, era ele quem estava na portaria quando Toomey chegou:

- Só vi o americano quando ele chegou de madrugada, no domingo, trazendo nas mãos quatro malas bem pesadas. O Sr. Humphrey me pediu que o ajudasse a carregar a bagagem até o apartamento da filha, que ficou feliz ao vê-lo chegar. Ainda ganhei Cr$ 15. A gorjeta era um velho hábito dele, sempre que descia do táxi. Fiquei na portaria das 22h daquela noite, até às 7h do dia seguinte, e nesse período não notei a presença de estranhos no edifício.

Segundo o porteiro, os moradores do prédio nunca reclamaram do “entra e sai de mulheres” provocado por Toomey:

- Quando ele estava no Rio, entrava e saía várias vezes por noite, e voltava sempre acompanhado, mas nunca com homens.

E quando não subia acompanhado, ainda segundo o porteiro, Toomey avisara que chegaria uma mulher em determinada hora, e autorizava previamente a sua entrada. Na madrugada do dia em que morreu, no entanto, ele subiu sozinho, e não anunciou nenhuma visita, segundo o porteiro.

Esse dado foi considerado da maior importância, nas minhas investigações. Enquanto a polícia – levada, é claro, pelas evidências – se preocupava em levantar a vida dos que conviviam com Toomey no Brasil, eu começava, até então apenas a partir do que os jornais noticiavam (minha participação no caso, numa trilha que me levaria à cena inicial desse capítulo, a da cremação do corpo: o norte-americano morrera não por seu envolvimento em alguma coisa nefanda, mas por uma dessas circunstâncias mesquinhas e imprevisíveis que um aventureiro como ele jamais pensara um dia enfrentar.

3 – As personagens entram em cena.

Já falei sobre as pessoas que conviviam com Toomey no Brasil, e que imediatamente despertam suspeitas na polícia. Para não deixar de ser polido, eu diria que ela eram apenas informais”, que nada tinham a ver com as amizades circunspectas que se espera sejam as de um executivo bem sucedido como era ele. Vamos citar algumas dessas figuras, começando com as quatro que possuíam chaves do apartamento onde ele morreu.

A primeira era Clari Carlos de Almeida, a empregada doméstica: à falta de um mordomo nessa história de crime, ela passa, daqui por diante, a ocupar o posto. Gorda e bem falante, íntima da casa, foi, durante alguns dias, tida como suspeita – muito mais por sua preocupação em aparecer, em ser fotografada, em ver seu nome nos jornais, que mesmo por qualquer atitude comprometedora. Clari falou muito, e provocou bastante confusão. Chegou, a certa altura, a pedir proteção a polícia, pois se dizia ameaçada. Foi afinal afastada pela própria família do morto, e o caso tornou-se menos confuso quando ela saiu de cena.

A segunda pessoa a ter a chave do apartamento era Gailbraith, a filha do morto, que morava lá. Separada do marido, Paul Lojnikov, muito nervosa nos seus encontros iniciais com a imprensa e com a polícia, professora de meditação transcendental, ela se comportou, no caso, com a máxima discrição; tanta que chegou a esconder algumas informações da polícia. E por isso, a certa altura, também foi considerada suspeita, ainda mais porque não revelou que, quando Toomey chegou, na véspera do crime, encontrou-a no apartamento com um homem (Bill Huber era seu nome, e – detalhe a ser lembrado – ele usava barba). Uma declaração do porteiro José Corrêa Filho a respeito:

- Nos últimos dois meses, só quem entrava no apartamento com a filha de Mr. Toomey era um barbudo, cabelo e barba grisalhos, de uns quarenta e poucos anos. Mas ele só entrava com ela à noite, e dormia lá. Pelo menos nunca o vi saindo no meu horário.

A terceira pessoa a ter uma chave do apartamento poderia, inclusive, ter escrito essa complicada história, já que é um especialista no assunto. Trata-se de Robert Fish, autor de histórias policiais, norte-americano, e que escreveu, entre outros livros, Bullit, e uma série que se passa no Brasil – onde ele também morou -, sempre com a “Da Silva”, um detetive brasileiro como personagem principal. Uma dessas histórias acabou sendo filmada no Rio – Missão: matar, com Tarcísio Meira no papel principal -, e foi durante a fase de produção que surgiu a amizade entre Fish e Toomey. Este último, junto com André Fodor (de quem falaremos a seguir), entrou como sócio no filme, e em pouco tempo era tão amigo do escritor que lhe deu uma chave do apartamento. Fish, no entanto, não pôde ser envolvido no caso, pois à época do crime estava nos Estados Unidos.

A quarta pessoa a entrar e sair livremente do apartamento era André Fodor, ex-colunista social do jornal do Brasil Herald. Produtor artístico, editor de um guia turístico para a América Latina, diretor da Taurus Filmes e representante de várias revistas estrangeiras, este húngaro naturalizado brasileiro era uma espécie de procurador do morto. Pagava suas contas no Brasil, encaminhava seus negócios, e sabia mais sobre ele do que deixou transparecer, ao longo do inquérito. Fodor sustentou, durante todo esse tempo, que não chegou a falar com Toomey nesta última visita ao Brasil, e que nem sequer soube de sua presença aqui, até que a empregada Clari e Gailbraith o informaram. A polícia o ouviu longamente, mas foi a gravação do telefonema que trocou com Gail, na tarde do crime, o que o afastou da lista de suspeitos:

Fodor: Gail, onde está Daddy (papai)?

Gail: Daddy chegou, mas esta morto.

Fodor: Você avisou Paul (o ex marido da moça)? Ele está ai?

Gail: Paul foi avisado, mas ele não vem, porque não gosta de ver mortos.

Por que Paul Lojnikov “não gostava de ver mortos?” Ele não tinha chave do apartamento, mas de todas as figuras surgidas neste caso era sem dúvida a mais estranha. Russo nascido na China e criado em Cantão, ex-boxeador, exportador de pedras preciosas no Rio e dono de uma casa, em São Conrado, cujas portas estavam sempre abertas às pessoas desamparadas espiritualmente (uma delas, como mostrarei depois, é que me levou à solução do crime), ele se casara com Gail contra a vontade de Toomey e, como este previra, o casamento não dera certo. Mesmo assim, fora o norte-americano – através de Gail – quem lhe fornecera capital suficiente para montar a firma de exportação de pedras preciosas.

Cultor de fenômenos para-normais, a fazer, sempre que possível, relatos de suas experiências místicas (foi influenciada por ele que Gail resolveu ensinar meditação transcendental), Lojnikov era ao mesmo tempo um homem muito prático: tinha em sua casa cinco armas de fogo, uma delas de calibre 38 – o mesmo da bala que matou Toomey -, e seria, até o final da história, um dos seus personagens mais importantes.

Todas estas figuras, além do próprio Bill Huber, o amigo de Gail, e de Rotraud, a viúva, quando esta chegou ao Brasil, se entrecruzaram nos dias seguintes, apresentaram, cada uma, a sua versão contraditória do caso, e estabeleceram uma confusão que só seria desfeita oitenta dias depois, e não por acaso, como se pensou. Foi preciso todo um trabalho paralelo – a polícia agia na superfície, eu o fiz à sombra – para chegar, afinal, ao homem que matou Humphrey Wallace Toomey.

 

4 – Quinze dias de mistério

O crime da Rua Rainha Elisabeth: foi assim que intitulei o relatório no qual havia trabalhado durante várias horas, no dia 22 de dezembro de 1974, numa tentativa de fazer um resumo de sintetizar tudo o que havia trabalho durante várias horas, no dia 22 de dezembro de 1974, numa tentativa de fazer um resumo, de sintetizar tudo o que havia sido levantado, naqueles 15 dias, sobre o caso Toomey. Lembro-me de que, à época, comentei comigo mesmo que aquele bem poderia ser o título de um filme policial. Se, por ironia da sorte, o seu roteiro fosse escrito pelo próprio Robert Fish, um especialista no gênero, provavelmente faria tanto sucesso quanto Missão: matar. Só que não poderia ter o mesmo produtor. Pois este, agora transformado em personagem principal da história, já estava morto.

Apenas para situar melhor o leitor no enigma – exatamente como fiz comigo mesmo, à época – vamos transcrever, aqui, o relatório.

Hoje ele é um dos documentos que formam, em meu arquivo, o alentado dossier sobre o caso Toomey:

“Nesse emaranhado em que a polícia se debate há 15 dias, como bons thrillers de suspense, as hipóteses se sucedem até onde a imaginação pode alcançar – e além dela. De concreto o que se tem é um homicídio e um sem número de suspeitos. Do assassinato, porém, as autoridades foram as últimas a saber: o corpo, já cremado em São Paulo, foi descoberto Às 12h:30min de segunda-feira, dia 9, mas a polícia só foi informada por volta das oito horas da noite. E quando chegou ao local do crime, já encontrou pelo menos umas dez pessoas.”

“Aparentemente nada tinha desaparecido, não ser Ana Paula, uma cadelinha yorkshire-terrier de quatro meses, que pertencia à filha da vítima, Gail, e que Toomey chamava carinhosamente de Surprise. Mas a partir daí, tudo passou a complicar-se para a polícia, e o caso começou a ganhar contornos de literatura de folhetim à medida em que ia entrando em cena uma variada gama de personagens que parecem criados pela própria Agatha Christie, a começar pelo ex-genro da vítima, Paul Lojnikov, um boxe no Oriente, e que chegou ao Brasil como refugiado político, para negociar pedras preciosas.”

“Outro personagem que, num filme policial, teria todas as características de “um suspeito”, também entrou em cena e chegou a entusiasmar os investigadores. É Bill Huber, um norte-americano de barba fechada que no fim se descobriu tratar-se do namorado de Gail, a filha do morto.”

“A própria vítima é um personagem fascinante para os amantes da literatura desse gênero. Toomey era um misto de Casanova e empresário bem sucedido. Esse aspecto de sua personalidade, até então apenas conhecido num restrito círculo de parentes e amigos íntimos, ganhou as manchetes dos jornais, chegando, inclusive, a surpreender seus antigos companheiros da diretoria da Pan American.”

“Motivos e suspeitos: partindo-se de uma antiga teoria segundo a qual “até a solução do crime todos são suspeitos”, as investigações policiais – iniciadas pelo 13° DP e atualmente continuadas pela Delegacia de Homicídios – já conduziram a um sem fim deles. E para complicar mais ainda, à indicação retórica quanto ao porquê determinado suspeito mataria Toomey, se antepõe uma outra: e por que não?”

“Conhecidos seus hábitos no Rio – sempre que chegava, sua primeira preocupação, depois dos negócios, era a procura de companhia feminina -, as investigações voltaram-se para os inferninhos de Copacabana. Já no terceiro dia, o movimento de todos eles começou a cair e, em pouco tempo, mundana ou explorador que tivesse animais de estimação, pelo sim pelo não, procurava desfazer-se imediatamente deles. É que a tônica das primeiras diligências continha uma indagação: quem possuía um cachorrinho? Imaginava-se, e ainda perdura essa idéia, que quem estivesse com Ana Paula seria o criminoso.”

“Outro setor da delegacia de Homicídios centralizou suas investigações em torno do ex-genro do piloto assassinado. Paul foi detido duas vezes para interrogatório, e ouvido duas vezes até ontem (dia 21). Ele também passou a ser o suspeito ideal. Não gostava do sogro, mas mantinha excelentes relações com a ex-mulher; eram sócios, Paul e Toomey, no negócio de pedras preciosas; Paul tinha cinco armas de fogo, uma inclusive de calibre 38, do tipo usado pelo assassino ou assassina, que foi apreendida pela polícia dias após o crime.”

“A teia desse mistério começava a ser construída com rapidez, à medida em que iam despontando novos fios. Gail passou a ser a suspeita número um, pois, segundo as especulações ouvidas nos bastidores da delegacia, teria motivos para odiar o pai: ele fora contra o seu casamento com Paul, ela estaria fora da herança e estaria, além disso, encobrindo o criminoso – daí a demora, no dia do crime, em chamar a polícia.”

“Mas o rol dos suspeitos continuou aumentando. Desta vez foi incluída Clari, a antiga empregada da vítima. Dentro daquela linha de especulações, dizia-se que a empregada doméstica, ao longo dos anos – estava com Toomey há dez -, praticava pequenos furtos no apartamento. Descoberta, ela o teria matado, ou estaria mancomunada com um amante para matar o patrão. Foi ouvida na polícia duas vezes, e da última, depois de diversas ameaças, terminou concordando num ponto: faria para um dos detetives o serviço de vigilância sobre os parentes da vítima. “Orelha colada nas paredes”, foi a recomendação que recebeu.

“Até o momento, a única pessoa aparentemente fora de suspeitas, nessas investigações oficiais, é Rotraud Toomey, a viúva da vítima, que chegou ao Brasil após receber a notícia da morte do marido. Mesmo estando em Miami por ocasião do crime, ela terminou envolvendo-se na trama: tentando evitar um maior escândalo para a sua família, retirou do cofre as três armas do marido, uma delas um revolver calibre 38.”

“Nessa ciranda de suspeitos, um outro nome está sendo investigado: André Fodor, antigo sócio de Toomey na produção do filme Missão: matar, que tinha as chaves do apartamento e também cuidava de pequenos negócios do amigo. Além, disso, fora do círculo ligado à família da vítima, mais precisamente na vida noturna carioca, a polícia na época já contava com pelo menos 30 pessoas suspeitas. Em sua maioria são mundanas, cujos nomes e endereços figuram num dos três cadernos de notas de Toomey.”

“A essa altura, pelo menos um detalhe desse mistério já foi explicado: o fato de Toomey permanecer sentado na cadeira, sem se mexer, mesmo depois de ferido pelo assassino; é que, segundo os laudos médicos, a bala foi se alojar na espinha dorsal, e o paralisou totalmente, na mesma hora. E aqui cabe lembrar um fato terrível: sentado na cadeira, sem poder se mexer, ele morreu aos poucos, enquanto o criminoso possivelmente ainda se movimentava diante dos seus olhos.”

A transcrição desse relatório é importante, como veremos a seguir, já que a data em que o elaborei teve, no meu trabalho, um caráter simbólico. Foi naquele dia que um telefonema anônimo me indicou a direção certa, dentro do confuso caso Toomey. E a sua releitura me serviu para provar a polícia, até então, nem sequer havia chegado perto do verdadeiro criminoso.

 

5 – Uma voz anônima

As denúncias anônimas nunca devem ser subestimadas nas investigações criminais. Exige-se apenas que elas sejam cuidadosamente investigadas, e que nunca se tornem públicas antes que haja algum fato que as comprove, pois nem sempre partem de algum interessado em que seja feita justiça; às vezes, o informante anônimo age movido apenas pelo desejo de vingança, ou mesmo – e então ele se revela em sua forma mais doentia – pelo interesse em tumultuar o andamento de um caso.

Foi por isso que, naquele dia 22, ao receber um telefonema anônimo que me indicava um nome, Sétio Maia, como o assassino de Toomey, decidi agir como a lógica me ensinara: com cautela. A voz anônima acrescentara poucas informações ao nome: o acusado seria guarda ferroviário, e teria agido em cumplicidade com uma mulher, uma das muitas conquistas de Toomey no Brasil; e encerrara o telefonema com uma explicação para o fato de ter se tornado, ainda que por meios anônimos, um delator: estava apenas interessado em que se fizesse justiça.

Não foi difícil traçar, nos dias seguintes, um retrato com tintas fortes de Sétio Maia. Guarda ferroviário da Central do Brasil, casado, morador em um local típico da classe média remediada, o bairro de Fátima, ele levava, evidentemente, uma vida dupla. Quando deixava o emprego, partia para as boates da Zona Sul, onde explorava mulheres e se dedicava a pequenas tarefas clandestinas. Isso lhe bastava para que, apesar do modesto salário como guarda, aparecesse de vez em quando dirigindo um Dodge Dart, que dizia ser seu (era, na verdade, de um banqueiro do jogo do bicho, para quem freqüentemente fazia trabalhos).

Os negócios escusos ele negava todos, mas tinha uma fixação em casos policiais; dizia-se sempre um deles, pavoneava-se com o fato de ser cunhado do comissário Euclides Nascimentos, ex-presidente da Scuderie Le Cocq, irmão de um policial e, segundo um amigo que o definiu como um fanfarrão, “costumava inventar grandes investigações, que teriam chegado a bons resultados graças à sua intervenção”. Exercitava-se sempre em tiro com revólver – usava no cinto uma arma de calibre 38 -, e tinha uma pontaria razoável (o assassino de Toomey errou, a menos de dois metros, um dois disparos, e o que acertou não foi mortal: a vítima, depois do tiro, teve uma sobrevida de quase três horas).

Durante o trabalho que tive para traçar um retrato de Sétio Maia sem que ele suspeitasse, consegui até mesmo ouvir sua mulher, Eudete da Rocha Lira, que disse saber das aventuras do marido com mulheres de vários inferninhos, especialmente uma boate da Rua Francisco Sá, em Copacabana:

- O que ele faz da porta para fora não me interessa disse ela. – Em casa, Sétio é ligado em mim.

O último detalhe levantado sobre o suspeito foi na própria Central do Brasil: ele licenciou-se para tratamento de saúde no dia 9 de dezembro de 1974, exatamente na data em que foi morto o ex-vice-presidente da Pan Am. Naquele dia, disseram seus colegas de trabalho, ele parecia particularmente nervoso, o que justificou o seu pedido de licença.

Mas a denúncia anônima não foi dada apenas a mim. Ela chegara também à polícia. E enquanto eu partia para a investigação sigilosa, aquela não tomou as precauções necessária, e no dia seguinte o nome de Sétio aparecia em todos os jornais, envolvidos no noticiário do caso Toomey. E foi armado um esquema tão aparatoso para prendê-lo que ele pode se dar ao luxo de sumir durante três dias, e só aparecer quando, através de um advogado, tinha toda a sua defesa preparada.

- Sétio, você matou o americano ou não?

A pergunta foi feita ao ex-guarda ferroviário na tarde do dia 26 de dezembro de 1974, na Delegacia de Homicídios, Durant o interrogatório a que ele foi submetido como suspeito da morte de Humphrey Wallace Toomey. Ele disse primeiro que não poderia responder à pergunta. Mas o policial insistiu:

- Responda sim ou não.

Ele respondeu que não, e o policial prosseguiu:

- Então você vai nos entregar o seu revolver calibre 38, cano longo, número 204.262, registrado no DOPS em seu nome.

Sétio vacilou, e depois respondeu que a arma havia sumido. O detetive que o interrogava comentou que uma arma não some “sem mais nem menos”. Resposta de Sétio: ela havia sumido há uns sete meses. Mas isso era mentira, de acordo com o levantamento que fiz: ele não poderia ter perdido a arma há sete meses, porque ela fora comprada há apenas cinco, em julho. E essa foi a contradição mais séria anota em seu depoimento.

Sétio Maia foi interrogado durante três horas, depois que se apresentou espontaneamente. Com ele estavam um advogado e um militar, que se apresentou como seu parente. A essa altura, ele já fora demitido dos quadros da Rede Ferroviária Federal, e não apenas por seu envolvimento neste caso; já acumulara várias faltas disciplinares, e até fora alvo de sindicâncias num caso de extorsão, o que lhe custou uma suspensão de 30 dias, enquanto outro implicado, um tal Armênio, fora demitido.

Apesar da contradição em que caira ao falar de arma, Sétio se saiu bem no interrogatório policial. A polícia não conseguiu levantar qualquer ligação entre ele e a vítima e, evidentemente, uma denúncia anônima não bastava para implicá-lo no crime. Dessa forma, ele foi liberado, e nos dias seguintes sumiu: do noticiário dos jornais, do apartamento modesto do bairro de Fátima, dos inferninhos da Zona Sul e, finalmente, do Rio. Tudo isso sem saber que eu continuava no seu encalço.

 

6 – Um trabalho paralelo

Sim, porque a essa altura eu já identifiquei a mulher a quem a voz anônima junto com Sétio. Não era exatamente uma freqüentadora de inferninhos da Zona Sul, mas era conhecida de Toomey e, talvez, mais que isso: era, junto com sua família, uma espécie de protegida do norte-americano e, como tal, tinha livre trânsito em sua casa quando ele estava no Rio. Além disso, freqüentava com relativa assiduidade a casa de Paul Lojnikov, o genro de Toomey, em São Conrado, junto com a mãe e duas irmãs. Seu nome: Cacilda Sandri, ou Kátia. Ela apareceu pela primeira vez no noticiário porque, na tarde do dia em que Toomey foi achado morto, telefonou para a sua casa. Gail, que atendeu o telefone, lhe pediu que não mais procurasse o seu pai, e lhe deu a trágica notícia. Depois, como uma das mulheres cujo telefone aparecia na agenda de endereços do norte-americano, ela chegou a ser ouvida pela polícia. Mas não teve seu nome ligado ao de Sétio Maia, apesar de uma evidência: Cacilda também trabalhava na Central do Brasil, à época do crime.

Mas o terceiro dado a incriminar Cacilda Sandri eu o guardei comigo: Eram as cópias (Xerox) de cheques e ordens de pagamento feitas em seu nome por Toomey, quando estava nos Estados Unidos. Essas cópias, que mostravam o grau de intimidade existente entre os dois, me foram entregues pela viúva, Rotraud.

Foi através de Paul Lojnikov, o genro de Toomey, que levantei, sobre Cacilda, dados bastantes para considerá-la suspeita. Ele me disse como ela ficara desesperada ao saber da morte do norte-americano: chorando muito, lhe disse, pelo telefone, que perdera seu grande protetor. Depois disso, ela – que anteriormente morara com a mãe, Ertilde, e duas irmãs – ainda o procurou duas vezes. Uma delas quando Sétio foi apontado pelos jornais como o assassino.

- Dessa vez eu conversei com ela – Paul me disse – querendo saber se estava ou estivera ligada a Sétio. Mas ela sempre negava, dizendo que o conhecia apenas de vista, de vê-lo entrar no restaurante da Rede Ferroviária Federal. Depois sumiu, e eu soube apenas que ela tinha ido para o Sul. Quando Paul me disse isso durante uma longa conversa que mantivemos sobre Kátia, eu achei melhor não lhe revelar um segredo. A essa altura, eu já conseguira uma prova de que ela não apenas conhecia Sétio, mas mantinha um romance com ele. Foram precisos muitos dias de paciência e discrição, mas um dos meus auxiliares colheu bons frutos, após todo um período de vigilância: no dia 21 de dezembro, após seguir durante muito tempo os passos da moça, ele a viu sair de casa com um rapaz, que a levou de carro para uma boate, de onde os dois saíram para um hotel de alta rotatividade. No dia seguinte, quando os dois deixaram o hotel, eu, que fora chamado pelo meu auxiliar, reconheci à luz do sol o acompanhante de Cacilda Sandri: era Sétio Maia.

A essa altura a polícia se voltara totalmente para as possibilidades fantásticas do caso Toomey. Falava-se num possível envolvimento do ex-vice-presidente da Pan Am com a Máfia; de sua quase provada participação nos negócios do tráfico de tóxicos; de uma negociata clandestina com grandes extensões de terras no Brasil-Central, da qual ele fora o testa-de-ferro, e que resultara numa vingança; suspeitava-se ainda dos parentes, dos amigos, e mergulhava-se a fundo no redemoinho de pistas impossíveis, enquanto o caso ia progressivamente dando lugar a outros, no noticiário dos jornais. Quando os repórteres afinal silenciassem sobre o caso Toomey, já estava previsto, ele ocuparia, nos arquivos policiais, o seu lugar entre os mistérios insolúveis, e como tal ficaria, sem que ninguém mais se lembrasse dele.

Mas eu trabalhava por minha conta para que isso não fosse possível. Passados mais de dois meses desde que tinha iniciado as investigações sobre a morte de Toomey, as pistas que me pareciam mais consistentes já haviam sido seguidas e eliminadas. Sétio e Cacilda eram os únicos a continuar na lista dos fortemente suspeitos, já que ela, sendo amiga do norte-americano, poderia ter tramado com Sétio um assalto ou uma extorsão contra o velho. Esta suspeita era fortalecida com o detalhe de Kátia ter telefonado para a casa de Toomey quando este já estava morto – apenas como quem queria se certificar do assassinato do homem. Sendo amiga e protegida do americano, o lógico seria outro tipo de comportamento. Quando a Sétio, eu já sabia que se tratava de mau elemento, tido como explorador habitual de homossexuais frequentadores da Cinelândia, e capaz, portanto, de um crime de morte.

A essa altura, Cacilda, pretextando doença – ela andava realmente a cada dia mais nervosa – viajou para Santa Catarina, onde tinha parentes. E enquanto seguia seus passos no Sul do país num trabalho paralelo que me tomou quase dois meses, tinha certeza de que, mais dia menos dia, entregaria à polícia o caso Toomey inteiramente esclarecido. De Sétio, que sumira do Rio, ainda não tivera notícias. Mas o modo cuidadoso como Cacilda se movimentava era um indício de que ele estava por perto; os dois amantes, unidos para sempre por causa do crime nefando, fatalmente se reencontrariam.

No dia 27 de fevereiro de 1975, a notícia desse reencontro, que ocorreu da forma mais dramática, me chegou às mãos. Vejamos o que O Globo publicou a respeito:

“Florianópolis – O ex-guarda ferroviário Sétio Maia, principal suspeito de ter assassinado o ex-vice-presidente da Pan American, Humphrey Wallace Toomey, em dezembro do ano passado, foi detido na cidade de Rio do Sul, a 210 quilômetros a Oeste de Florianópolis, depois de assaltar e balear o funcionário do Banco do Estado de Santa Catarina, Aírton Fronza, no último domingo, e fugir com mais de Cr$ 300 mil.

Entretanto, só ontem a polícia descobriu que ele estava envolvido na morte do milionário, no Rio, através de recortes de jornais encontrados em seu poder.

Na noite de domingo, em companhia de uma mulher identificada como Kátia Rocha, Sétio assaltou Aírton quando, este transportava o movimento de apostas do Grande Prêmio Luís Soldadelli, disputado no Jockey Club do Rio do Sul, no último fim de semana, apossando-se de Cr$ 327.825,00.

O ex-guarda usava um Volkswagem azul com placa da Guanabara com o qual interceptou o Volkswagem do bancário na subida do Morro da Boa Vista, disparando o seu revólver quatro vezes contra a vítima. Aírton caiu ferido no peito, na cabeça e no braço esquerdo, e Sétio arrebentou-lhe a pasta 007 em que o dinheiro era transportado.

Pela descrição fornecida pelo bancário ao ser socorrido, a polícia localizou o ex-jogador de futebol Pereira, viciado em drogas, que na semana passada havia sido visto em companhia de um estranho na cidade. Ele forneceu o endereço do ex-guarda no Hotel Pouso Redondo, onde Sétio logo depois era preso com Kátia, sem resistência, confessando o delito”.

 

7 – Rumo a Florianópolis

Um detetive particular tem que se valer exclusivamente de sua habilidade, no interrogatório de um suspeito, buscando no máximo sensibilizá-lo para uma confissão. Não pode usar de outros meios, como faz a polícia; e no meu caso eu nem pensaria em usá-los, pois sou inteiramente avesso à violência.

No caso de Sétio Maia, eu já sabia que seria impossível fazê-lo confessar. Tratava-se de um homem frio, violento e acostumado ao trato com policiais, consciente das conseqüências de um crime de homicídio e, portanto, difícil de se deixar envolver. Quando a Kátia, era uma moça oriunda de uma família decente, criada com dificuldades, trabalhadora, muito ligado à irmã, Nani, e que demonstrava ter muito respeito por Paul Lojnikov. Kátia era, assim, mais propícia a uma confissão.

Tudo isso eu pensava no avião que me levou a Florianópolis, no dia 1° de março, com uma missão específica: esclarecer os policiais de Santa Catarina sobre o caso Toomey, já que estes pouco sabiam sobre a morte do norte-americano, e orientá-los no interrogatório dos suspeitos. Até então, os dois se limitavam a negar qualquer envolvimento no crime, sempre que eram questionados a respeito.

Antes da viagem no entanto, eu já fora à casa de Lojnikov, buscando dele obter, da forma mais discreta possível, uma recomendação para que Kátia colaborasse conosco, confiasse integralmente em nós. Depois de algumas horas de conversas, consegui o meu intento: tinha em mãos não só a recomendação, como a quantia de Cr$ 300 que Paul mandava como ajuda para Cacilda Sandri. Depois, fui à casa de Kátia em Maria da Graça, e repeti, junto à sua família, um trabalho semelhante, conseguindo igualmente uma recomendação, assinada por sua irmã. Estava, assim, munido de elementos para sensibilizar a moça. Ao amanhecer, parti para Florianópolis sem certeza do resultado final da minha missão, embora há muito tempo já não tivesse a menor dúvida quanto à cumplicidade de Sétio e Cacilda na morte de Humphrey Wallace Toomey.

Com 250 mil habitantes, gente pacata e simples, Florianópolis é uma cidade onde raramente existem ocorrências policiais de expressão. Assim, a prisão de Sétio e Kátia pelo assalto em Rio do Sul foi um acontecimento inusitado, tanto para a polícia catarinense como para a imprensa local. Mas o caso Toomey praticamente não foi mencionado, pois ninguém sabia exatamente o que perguntar aos detidos.

Cheguei à cidade por volta das 17h, no justo momento em que o delegado Nilson Landman ia apresentar os detidos à imprensa. Só ele e outra autoridade presente – o Major José Carlos Braga, assessor do Secretário de Segurança – foram inteirados do meu objetivo: interrogar Kátia.

Após relatar, em rápidas frases, para o delegado, alguns dos detalhes que levantara sobre os dois presos, dispensei qualquer outro contato com Sétio, que foi mantido em sala separada. E depois de prometer ao delegado Landman que manteria sigilo absoluto sobre tudo o que acontecesse na delegacia até que o caso fosse totalmente esclarecido, tive finalmente acesso a Cacilda Sandri.

Primeiro ela se mostrou muito arrogante. Com o passar dos minutos, no entanto sinais de nervosismo e, finalmente, de medo. Disse que queria ajudá-la, mostrei as recomendações de Lojnikov e de sua irmã, e ela me agradeceu. Falamos de Toomey, e eu lhe mostrei fotocópias dos vários cheques que o norte-americano havia lhe dado em ocasiões diferentes – e que eu havia conseguido com a viúva, Rotraud -, bem como recibos de remessas bancárias que ele lhe mandara de Coral Gables, nos Estados Unidos. À beira do choro, ela se permitiu então um primeiro desabafo:

- Ele era como um pai, para mim.

Reafirmei minha intenção de ajudá-la, mas com uma condição: que ela me dissesse a verdade sobre sua participação no caso Toomey. Em resposta, ela me disse o que mais temia nos últimos tempos: era que Sétio resolvesse matá-la. Eu lhe expliquei que isso não seria possível, se ela nos ajudasse a prendê-lo. Mas ela se mantinha obstinada em sua decisão de não confessar. Lembrou que, neste caso, os dois seriam recambiados para o Rio, onde Sétio dizia ter muita influência junto à polícia.

- Que garantias eu terei? – ela me perguntou.

Era um diálogo cuidadoso, lento, e eu tinha que ser necessariamente sutil. Lembrei a Kátia que ela poderia sempre contar com a Justiça, já que sua participação no caso, aparentemente, fora indireta (o objetivo inicial, no ataque a Toomey, era apenas roubá-lo; o homicídio foi idéia de Sétio). O tempo corria, e eu temia que num repente o delegado Landman desse a entrevista por terminada, pois eu estava com a moça a mais de três horas. Na sala ao lado, alheio ao que acontecia, Sétio, segundo me disseram depois, permanecia tranqüilo, tratando com sua costumeira arrogância os policiais catarinenses. Vendo os minutos a escorrer, preocupado com o prazo que me fora dado, fiz um último apelo à moça, invocando os seus sentimentos. Recordei o telefonema que ela dera para a casa de Toomey, na noite em que o corpo foi encontrado, e do modo como Gail lhe dissera, em prantos:

- Você não precisa mais telefonar para o meu pai. Ele está morto.

- O que você sentiu naquela hora, Kátia? – Eu lhe perguntei.

Kátia tremia. Eu a deixara num estado tal, que a confissão, a essa altura, era uma simples questão de consciência. E ela, ao contrário de Sétio, ainda possuía. A moça levantou-se repentinamente, após alguns segundos de silêncio, e gritou, em frases entrecortadas pelo pranto, a confissão pela qual eu esperava:

- Foi Sétio quem matou o Toomey. Eu dei a ele o endereço do velho e indiquei a melhor hora para assaltá-lo, mas o americano reagiu e Sétio o matou.

O crime fora cuidadosamente planejado pelos dois. Sétio iria procurar o americano numa hora em que sabiam que ele estaria só, com um cartão que ele dera a Cacilda, e em nome desta. O pretexto seria pedir um favor qualquer, e assim ele conseguiria entrar no apartamento da Rua Rainha Elizabeth. Mas as coisas não saíram exatamente como esperavam – Toomey, acostumado ao perigo, não se intimidou com as ameaças de Sétio, e este perdeu a cabeça. Um fim demasiado simples para uma história tão complicada.

Quando o delegado Landman entrou na sala para anunciar que meu tempo estava esgotado, eu lhe disse, em resposta, que trouxesse o escrivão para anotar a confissão de Kátia.

 

8 – Uma confissão

O meu gravador portátil já estava girando, fixando as palavras da moça, quando ela começou a falar. Ainda hoje tenho essa fita comigo, e de vez em quando a escuto, pois ela me ensina muita coisa sobre a natureza humana. O resultado mais importante desse meu trabalho foi, sem dúvida, o sofrido diálogo com a infeliz Cacilda Sandri, que aqui reproduzo na íntegra:

- O que aconteceu no caso Toomey?

- Eu não sei como falar sobre esse caso. Não tenho, não encontro palavras para dizer como isso aconteceu.

- Afinal de contas, o Toomey para você, vamos dizer...

- Era um pai para mim. Eu me sinto culpada pela morte dele. Eu acho que... Eu, talvez... Tenha mais culpa do quem tirou a vida dele.

- Por quê?

- Porque eu que dei...

- Deu o quê?

- O cartão. Mesmo forçada. Mas não esperava haver reação. Não era para haver nada, não era para fazer nada contra ele. Não era para matá-lo, não era para encostar a mão nele. Eu pedi pelo amor de Deus.

- Você gostava dele?

- Adorava. Eu nunca vou me perdoar por isso. Nunca, nunca na minha vida.

- E a tua situação em relação ao teu marido? Você acha que compensou tudo isso?

- Eu não vou ter mais coragem de voltar para ele. Nem para a minha família.

- E a tua mãe, conhecia Toomey?

- Conhecia.

- Gostava dele?

- Ele sempre ajudou a gente.

- Há quanto tempo ele ajuda vocês?

- Há cinco anos.

- E sobre Paul?

- Eu não tenho coragem de olhar ninguém mais. Eu me sinto culpada.

- Foi ele quem apresentou vocês?

- Para o Toomey, foi. Eu conheci ele na casa de Paul.

- E esse rapaz, afinal de contas, como é que ele apareceu na tua vida?

- Casualmente. Como aparecem muitas pessoas na vida da gente.

- Mas você tinha compromisso, coisa séria? Você gostava do rapaz com quem vivia?

- Adorava. Eu não sei mais como eu olho. Eu só tenho revolta dentro de mim.

- Revolta contra quem?

- Eu sempre fui revoltada, desde...

- Por que?

- Certas coisas que aconteceram quando eu tinha quatro anos.

- Por exemplo?

- Coisas entre meu pai e minha mãe.

- O que eram, brigas?

- Eram.

- Como é o nome do teu pai?

- Gentil Sandri.

- Ele trabalha em que?

- Meu pai é fazendeiro em Pouso Redondo.

- E sua mãe, ela trabalha?

- Trabalha. Ela sempre trabalhou para nos sustentar. Meu pai jurou nunca ajudar a gente. Quem nos ajudou sempre foi o Paul e o Toomey.

- E o Toomey tinha algum interesse nessa ajuda?

- Ele ajudava porque achava que nós éramos uma família só no mundo.

- Você nunca teve nada com o Paul?

- Não. Relações sexuais, nem com o Paul, nem com o Toomey.

- E esse Sétio, quando apareceu, você disse que o Toomey tinha recursos?

- Disse.

- E foi aí que ele disse o que tinha planejado?

- Foi.

- Ele queria como, que você o acompanhasse?

- Eu falei que não participaria. Ele me ameaçou, que eu desse o endereço e o levasse lá. Eu falei que não levaria. Eu dei o cartão de visitas de Toomey, e foi através desse cartão que ele foi até lá.

- Mas ele foi com que objetivo?

- Só de assaltar. Não tinha intenção de matar.

- E matou por que?

- Porque o Toomey reafiu.

- E ele contou isso para você?

- Ele disse que era ele ou Toomey.

- Mas o Toomey estava desarmado...

- Não, o Toomey estava armado.

- Não existe arma.

- Não, tinha arma. Assim ele me contou. Que o Toomey estava armado.

- E depois, o que foi que você falou com ele, quando soube que ele tinha matado o Toomey?

- Perguntei por que ele fez. Por que ele matou. Ele disse que era ele ou Toomey.

- Ele não conseguiu roubar nada?

- Não.

- Por que?

- Não sei, não perguntei, não quis mais entrar em detalhes. Eu me sinto culpada.

- Mas você continua com ele, por que?

- Com medo de morrer.

- Você esta arrependida de tudo isso?

- Terrivelmente. Por isso é que eu quero pagar pelos meus erros. Eu acho que na minha vida nunca, nunca vou conseguir pagar. Eu tenho um remorso tão grande.

- Você quer mandar algum recado para a filha de Toomey?

- Para ela me perdoar, se puder. Eu não matei o pai dela, eu matei o meu também.

Foi assim que eu obtive a confissão de Cacilda, enquanto, na sala ao lado, Sétio Maia nem de leve suspeitava de que sua sorte estava sendo selada. Horas depois, enquanto ele era levado para o presídio especial – onde continuou, nos dias seguintes, ignorando o meu encontro com Kátia -, ela prestava depoimento em cartório, assistida por um advogado (que eu mesmo contratei, cumprindo a promessa feita a Lojnikov e sua família). Depois de repetir a mesma história que me contara, ela passou a regime de rigorosa incomunicabilidade, e sob rígidas medidas de segurança contra possíveis tentativas de vingança de Sétio Maia. Este, na noite do dia 3, começou a ser interrogado: primeiro, sobre o assalto em Rio do Sul, e depois, sobre a morte de Toomey:

- Doutor, eu já fui preso no Rio por causa desse crime, e me mandaram embora. Agora podem me fazer qualquer pergunta, mas só vou responder em juízo.

A camisa aberta ao peito, sempre arrogante diante dos policiais catarinenses, alardeando o seu suposto parentesco com o comissário Euclides Nascimento, da Scuderie Le Cocq e relatando serviços que, em ocasiões diferentes, teria prestado à polícia carioca, Sétio Maia comprotou-se, durante o interrogatório, exatamente como eu previra: frio e calculista, em nenhum momento ele se deixou envolver pelas perguntas.

Durante quatro horas ele se esquivou. Negou conhecer Toomey, disse que nunca tinha ido à sua casa, e só uma vez mostrou sinais de preocupação: foi quando se falou em Kátia:

- Ela já foi interrogada?

- Não, por quê? – perguntou o delegado.

- Não é por nada não, mas o senhor sabe, ela pode querer aparecer.

O interrogatório terminou de madrugada, com o delegado Landman convencido de que ele não confessaria o crime. Mas as evidências contra Sétio eram tantas que dificilmente ele se livraria do castigo. Essa é uma certeza que até hoje me acompanha, embora a Justiça ainda não tenha se pronunciado sobre o caso.

9 – O círculo se fecha

O caso Toomey, como já disse, é hoje apenas um alentado dossier no meu arquivo. Mas com uma característica muito especial: a galeria de personagens nele envolvidas, se criada por um autor de ficção, pareceria, mesmo ao leitor mais fantasioso, inverossímil. A começar por este incrível criminoso, frio, arrogante, destituído de qualquer espécie de sentimento nobre, que é Sétio Maia. E o que dizer de Cacilda, a atormentada jovem que, através dele, desceu aos infernos e lá se perdeu? Os dois formavam, quando os vi juntos uma única vez, algemados, um casal patético. Havia, em torno deles, uma espécie de aura, um sinal que os marcava definitivamente – eles me pareciam claramente voltados para o mal.

É verdade que, naquela noite em que a interroguei, Kátia chorou, e quando o fez, declarou-se aliviada (havia, efetivamente, algo novo em sua expressão; não era paz nem tranqüilidade, mas uma espécie muito remota de clama, de repouso). Afinal, nos últimos quatro meses, ela só fora capaz de reagir de uma única maneira: através de uma tensa, conturbada emoção. Mas isso não lhe bastaria para esquecer o mal que praticara contra um homem que – ainda que de maneira bem discutível – só lhe fizera o bem.

E nessa galeria ainda havia Gail, a enigmática filha de Toomey, que entregou-se de corpo e alma a uma missão: não mediu esforços para que a morte do pai fosse criteriosamente esclarecida. Paul Lojnikov, o grande suspeito nos primeiros dias de investigação, igualmente foi uma peça chave para o esclarecimento do caso. O que não o livrou da incrível aura de mistério que continua ate hoje a cercá-lo. E o que dizer de Andre Fodor? E como esquecer a empregada Clari, que desempenhou de modo tão tropicalista a sua função de “mordomo” nessa história policial?

Tivemos ainda Rotraud, a viúva misteriosa, a lembrar, com seus inseparáveis óculos escuros, determinadas mulheres, belas e perigosas, que costumam ter participação importante nos filmes de detetives. Tivemos até uma cerimônia de cremação, uma cadelinha que sumiu, uma sequência de guinadas que fizeram o caso, por várias vezes, mudar de direção, e um detetive particular cujo trabalho, feito nas sombras, nem sempre foi bem visto: modestamente, eu.

Mas tivemos, principalmente, um crime. Sórdido, torpe, injustificável. Espero que Humphrey Wallace Toomey, que de modo tão violento e dramático terminou sua vida aventurosa, finalmente – terminados os três meses de mistério que aqui relatei – tenha descansado em paz.